Todo Dia a Mesma Noite – Daniela Arbex | Resenha do livro

“O livro é um memorial contra o esquecimento”, diz Daniela Arbex, sobre o lançamento de “Todo dia a mesma noite”, um resgate emocionante da identidade das vítimas da Boate Kiss.

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Foto: Vai Lendo

Em Santa Maria (RS), no dia 27 de janeiro de 2013, uma tragédia tomou conta do país. Durante aquela madrugada, um incêndio em uma casa noturna deixava o Brasil angustiado. As imagens da fumaça, saindo da Boate Kiss, enquanto dezena de homens marretavam a parede do local, eram transmitidas pelos telejornais. O trágico desfecho foram 242 mortes e mais de 600 feridos. Seis anos se passaram desse acontecimento que comoveu o país, que deixou tantos solidarizados e chorosos, mas todos já se esqueceram. Até porque nada aconteceu e ninguém foi, ainda, condenado. 

Em homenagem aos sobreviventes, aos familiares das vítimas, as esquipes de resgate e profissionais da área da saúde, que nunca foram ouvidos e foram tão julgados, a Editora Intrínseca e a jornalista Daniela Arbex decidiram fazer uma reportagem definitiva sobre essa tragédia, que estarreceu o Brasil e deixou Santa Maria num eterno luto. Daniela trabalha há 22 anos como repórter do “Tribuna de Minas” e depois de duas vezes premiada com o prêmio Jabuti, e com outros prêmios nacionais e internacionais por suas reportagens investigativas, ela publica “Todo dia a mesma noite”, numa espécie de memorial em homenagem às vítimas de uma madrugada tenebrosa, mesmo que, para isso, ela tenha precisado revisitar o momento em que jovens se amontoaram nos banheiros da boate, o ginásio onde pais foram recolher seus filhos falecidos e hospitais que tentavam desesperadamente salvar vidas, que se esvaíam. Ela foi buscar ainda quem permaneceu vivo, porém sofre dolorosamente por isso. Depois de centenas de horas dos depoimentos dos envolvidos, para saber tudo que mudou na vida de cada um, Daniela escreveu como aquela triste noite rendeu (e rende).

A jornalista explica no prefácio que, o objetivo do livro, é nacionalizar a tragédia e fazer com que as pessoas se coloquem no lugar do outro, criando empatia com esse evento, entendendo o tamanho da devastação provocada pela dor, mas também pela falta de justiça. É um livro para fazer lembrar. Para que a gente aprenda com os eventos que nos marcaram. Pois é algo tão recente, mas do qual a gente já esqueceu. A gente se comoveu, se solidarizou, o Brasil chorou e depois de uns tempos, ninguém mais falou ou fala disso. Ou seja, virou a página. Então o livro pode nos fazer nunca mais virar a página. O livro é um memorial contra o esquecimento.  E o porquê desse título, que tanto chama atenção? Para quem perdeu um pedaço de si na Kiss, todo dia é 27. Para quem, por Deus, sobreviveu, porém marcado ficou, todo dia é 27. É como se o tempo tivesse congelado em janeiro de 2013. Em um último aceno, nas lembranças das últimas palavras e gestos. Das frases que soarão como uma despedida velada. Se a recordação de uma tragédia é dolorosa, imagina carregá-la dentro de si. Então, para quem vivenciou, morreu e sobreviveu com a Kiss, todo dia se vive a mesma noite.  

Resenha escrita por Delduque Avelino

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