Netflix quebra tabus e inverte clichês com Sex Education

Série da Netflix traz um teor moral, invertendo clichês e quebrando tabus com leveza.

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“Sex Education” é uma série necessária. Traz entre seus personagens um nerd excluído, um gay, um atleta descolado, uma jovem rebelde e assuntos como gravidez, drogas e sexo com naturalidade. Criada por Laurie Nunn, a trama mescla o bom humor e o drama de maneira eficiente, pois mesmo em situações de diversão, o público é capaz de compreender a mensagem séria por trás.

O enredo da trama acompanha Otis (Asa Butterfield), um jovem virgem de 17 anos, que é sexualmente reprimido, ao ponto de não conseguir nem se masturbar, entretanto ele demonstra um certo conhecimento sexual, pois sua mãe Jean (Gillian Anderson) é uma terapeuta do sexo e trata o assunto com toda naturalidade que é precisa, ao ponto de constranger o jovem. Ele é melhor amigo de Erick (Ncuti Gatwa), um homossexual assumido. Otis, que nenhum momento questiona a sexualidade do amigo, até se veste de drag para se diverti-lo. A amizade entre os dois é natural como deveria sempre ser. Porém, seu conhecimento teórico no campo sexual chama a atenção da bela Maeve (Emma Mackey), que o convence a criar um grupo de terapia para dar conselhos aos seus colegas de escola em troca de grana. A partir daí, percebemos que o sexo é um tabu para muitos dos alunos, que ainda encaram o tema com timidez.

Em oito episódios, o grande pano de fundo de “Sex Education” é a diversidade. Não apenas nos personagens, mas nos assuntos que ela aborda. Algumas de forma mais profundas e outras rasas. A série começa com a auto-estima. Otis se sente um perdedor, então acredita que será uma decepção sexual e sente um peso enorme quando iniciar sua vida amorosa. Outros personagens como a própria Maeve, demonstra estar segura de si, mas se sente perdida pela ausência dos pais e pelo abandono do irmão. Eles acabam encontrando um no outro um ombro amigo. Inclusive um ponto alto da série é esse, mostrar o quanto os jovens precisam de quem o apoie. A série então vai debatendo temas tabus de forma nua e crua, como masturbação, prazer, relações entre pessoas do mesmo sexo, virgindade, aborto, e ainda, de como as travas, tanto sexuais, quanto na vida, dos personagens podem ser causadas por problemas no âmbito familiar. Se Jean é a terapeuta dos adultos, Otis é dos jovens. A heterossexualidade e homossexualidade, por exemplo, são temas comuns e tratados com eficiência. Eric é o personagem mais carismático pela forma que encara sua sexualidade, mesmo sofrendo bullying. Ser negro e gay torna-o um alvo fácil, porém ele não abaixa a cabeça para isso. É muito bonita a forma como seu pai, que de início é alguém conservado ao extremo, comporta-se no decorrer dos episódios, encarando as adversidades com naturalidade. Tanto Eric como o pai se auto descobrem e a relação entre os dois se torna mais forte.

Além de fazer um ótimo trabalho, a série preocupa-se em aprofundar personagens e suas relações. O episódio 5, inclusive, é um dos mais fortes, dramáticos e importantes do seriado por falar de homofobia e também das chantagens feitas por meio do vazamento de fotos íntimas. Já não bastasse isso, “Sex education” é um ótimo entretenimento. Sendo uma série de comédia, as piadas e o humor são bem utilizadas é claro, porém o drama aparece na hora exata. E o elenco é muito carismático, com personagens facilmente relacionáveis.  Outro ponto importante, que a série foi extremamente certeira, foi reservar episódios sobre a intimidade feminina, principalmente na questão da saúde e mostrando que tratar de sexo continua, infelizmente, sendo um constrangimento e que muitas mulheres não conhecem seu próprio corpo. A questão social acaba afastando os jovens de buscarem conhecimento. Conhecer sexo não significa promiscuidade, é prevenir. Outro tema delicado e polêmico que é abordado, e muito bem por sinal, é o aborto, trazendo até a difícil decisão de abortar um bebê e o julgamento de quem está de longe, que prefere atirar primeiro a pedra do que entender a situação.

“Sex Education” é que a série que o público teen precisava na Netflix. Uma produção que trata assuntos considerados sérios com normalidade. É claro que, apesar de ser inovadora, ela bebe da fonte das tradicionais tramas sobre o dia a dia dos adolescentes no ensino médio, até por isso, há momentos em que é fácil perceber para onde a trama vai. Porém ainda precisamos debater esses assuntos e até chegar aos desfechos “previsíveis”, a produção apresenta tanta novidade, com boas atuações e tantos momentos de descontração. Afinal, os momentos de humor são necessários para evitar quaisquer constrangimentos na vida. Discussões sexuais deveriam ser mais presentes e a série contribui para que isso aconteça. Enfim, é uma série divertida, importante e que vale muito a pena a maratona.

Um texto escrito por Delduque Avelino